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quarta-feira, 10 de dezembro de 2008

Outras palavras


“O que dá ao homem um mínimo de
unidade interior é a soma de suas obsessões.”

Nelson Rodrigues, jornalista e dramaturgo

Nos últimos anos, participei da escolha do título de mais de 700 livros. Ainda que tratando-se de obras traduzidas na maioria dos casos, a dificuldade no “batismo” não foi menor. Que equação complicada escolher algumas palavras que traduzam a proposta do autor e, ao mesmo tempo, instiguem os potenciais leitores!

Viciados em mediocridade preenche ambos os quesitos de forma notável. Antes mesmo de iniciar a leitura do texto, o título provocante já suscita questionamentos e (in)conseqüentes reflexões. Difícil permanecer impassível ante um diagnóstico tão contundente...

Embora escrito na década de 80, a mensagem do livro permanece atual e é especialmente bem-vinda no Brasil. Enquanto desperdiçamos pelo menos duas décadas esgrimindo para usar bateria nos templos, a fila andou no mundo. E bastante.

Claro que sempre existiram vozes dissonantes por aqui. Algumas se levantaram para insurgir contra hinos americanos enlatados. Não sei se o queixume adiantou, mas há quem esteja supersatisfeito com novidades no cardápio do tipo canções em versão light... made in Austrália. Como cantava o Cazuza, “um museu de grandes novidades”. Não apenas o futuro repete o passado... somos todos repetentes no supletivo da inovação.

“De nada serve partir das coisas boas de sempre mas, sim, das novas e ruins.”
Bertolt Brecht, dramaturgo e poeta

Em meio à penúria reinante, algum espertinho criou uma solução que continua sendo avidamente deglutida pelo rebanho. O conteúdo é sofrível e sem qualidade? Basta pospor um adjetivo. Assim, temos a “adoração extravagante” e a “dança profética”, entre inúmeros ardis de eficácia nula fora do quadrado evangélico. Círculo apenas se pensarmos na retroalimentação que move nossa irrelevância.

Basta alguém iniciar uma discussão sobre a indigência artística cristã para descobrirmos que a mediocridade se estende também à capacidade de reflexão do rebanho. O tema em questão rapidamente é esquecido e recorre-se a uma infinidade de chavões do tipo “não tocar no ungido”, “até a mula de Balaão foi usada”, “Deus olha o coração”, “em vez de criticar devemos orar”, “quantas almas você ganhou?”, entre outros clichês menos cotados.

Adeptos desse tipo de reducionismo ficarão perplexos e possessos (sem trocadilho) com os termos usados por Schaeffer nestas páginas. O cara massacra impiedosamente a produção cristã... Essencial lembrar que o escritor se refere aos Estados Unidos. O que ele escreveria se desse uma passadinha aqui na terra das unções, levitas, sapatinhos de fogo e quejandos?

Pensando melhor, ele não deve aterrissar aqui porque anda meio ocupado com a faxina nos armários familiares. Em meio a muita poeira, revelações pra lá de indiscretas enxovalharam a imagem do papai Francis Schaeffer. A morte da razão?

“O revolucionário inventa as idéias. Quando as exaure, o conservador adota-as.”
Mark Twain, humorista e escritor

Em certos trechos da obra, Franky deixa a Arte de escanteio para sublinhar pensamentos hiperconservadores. A química parece meio estranha, afinal é comum ligar “arteiros” e artistas ao pensamento liberal. Mais uma vez o Brasil mostra ao mundo o seu caráter singular. Neste país tropical abençoado por Deus tanto os expoentes tidos como “liberais” quanto os “ortodoxos” pouco ou nada entendem do assunto. Mansa gente brasileira!

Sem a guarida dos teólogos, outra opção para estimular o debate seria usar as lentes da mídia. Um rápido exame mostra que as revistas ocupam-se de veleidades e temas relevantes como a festa de aniversário dos rebentos de cantoras de nomes tão improváveis quanto desconhecidos... Ao menos as publicações não escorregam no quesito harmonia: são ruins de capa e de conteúdo. Deselegância nada discreta.

Antes de pensar em possíveis epitáfios para a arte cristã verde-amarela, restam duas opções: livros e internet. Se você está com este livro em mãos, só o seu interesse pelo assunto já me faz aplaudir efusiva e pentecostalmente. O triste é lembrar que o Schaffer vai falar somente com alguns milhares de leitores, enquanto mantras e baboseiras em ritmos variados continuarão entorpecendo os ouvidos e a mente da turba.

No entanto, como tenho o gene da rebeldia impregnado nas cadeias do DNA, não acredito em soluções prontas. Da mesma forma que discordei de muitos lances elencados nestas páginas, espero que você siga pela mesma trilha, questionando e refletindo sobre cada ponto abordado. Como o livro apresenta uma espécie de “monólogo” doe seu autor, graças a Deus existe a internet para dar voz e vez aos leitores. Vários sites e blogs vão publicar esta diatribe prefacial, possibilitando a (re)ação e interação de todos. Se a palavra “viciados” indica a necessidade de cura, penso que o caminho terapêutico indubitavelmente passa pelo debate.

“Aos melhores falta toda convicção, enquanto os
piores são cheios de apaixonada intensidade.”

W.B. Yeats, poeta e dramaturgo

Como diria certo molusco, nunca antes neste Reino discutiu-se tanto sobre Arte. Meu reconhecimento e gratidão aos amigos Whaner e Ana Claudia pela contribuição que a W4 e o Cristianismo criativo têm dado ao rebanho. Se podemos vislumbrar um horizonte menos caótico no cenário artístico cristão, certamente o desvelo e a ousadia de vocês tem parte nisso.

A existência de limitações diversas não nos acovarda. Ao contrário, nos leva à ação diligente. Em nossa extensa lista de pecados e falhas não há de constar aquilo que o Rabino Jonathan Sacks classifica de “culpa do espectador”. O que estiver ao alcance de nossas mãos faremos com o melhor de nossa energia. Nas palavras do profeta João Bosco, “a esperança equilibrista sabe que o show de todo artista tem que continuar”. Yes, the show must go on!

Prefácio que escrevi p/ o livro Viciados em mediocridade, próximo lançamento da W4 Editora.

Prefácio do livro Viciados em Mediocridade,
da W4 Editora, por Sérgio Pavarine, no
Pavablog - 24.10.08

sábado, 22 de novembro de 2008

Viciados em Mediocridade 1

1º dia - 7/11
Com João Alexandre, Sérgio Pavarini (entrevistador) e Taís Machado.

Veja como foi.


Sobre o Fórum.

segunda-feira, 10 de novembro de 2008

A cultura de dentro

O pior mal é o que vem disfarçado de cordeiro.


O problema cultural da igreja não está em descobrir formas de interagir com a cultura “de fora”, mas em descobrir formas de eliminar a “cultura de dentro”. Toda missão de uma igreja é transcultural se você percebe que a própria igreja desenvolveu e mantém-se profundamente embebida em uma cultura própria, alienada, desconectada do mundo ao redor.

O cristão moderno tem músicas, revistas, programas de televisão e rádio, grifes de roupa, livrarias, eventos, feiras, restaurantes, shows de música, dança e teatro voltados para entretenimento próprio.

Na nossa realidade cristã, o auge do discipulado acontece quando conseguimos transformar um crente novo em alguém tão esquisito e alienado quanto nós mesmos. Quando conseguimos por fim isolar completamente o novo convertido do mundo “de fora” e aprisioná-lo, junto conosco, naquilo que Caio Fábio chamou de “triângulo da morte”, que resume nossa existência nesse mundo ao ciclo “casa-trabalho-igreja”.

Nos esforçamos para fazer com que os eventos da igreja tenham uma cara mais palatável para os “de fora”. Acreditamos que “interagir com a cultura” é tocar as músicas do louvor em um novo ritmo, mudar a liturgia aqui e ali, fazer retoques na estrutura eclesiástica arcaica, criar um novo evento e extinguir um antigo. Mas não temos coragem e disposição suficiente para darmos liberdade para que aqueles que foram libertos pelo Evangelho possam vivê-lo livremente nos ambientes de onde eles vieram e influenciar esses ambientes, e os amigos que estão lá, com a graça que os alcançou e libertou. Nosso grande pavor é perder a alma do infeliz se o deixarmos sair dos muros de segurança da subcultura cristã. Nosso esforço só é recompensado, quando o novo crente demonstra de forma clara os novos padrões de comportamento estético adquiridos.

É espantoso ver que pessoas com anos de igreja ainda se perguntam se podem jogar baralho, ouvir essa ou aquela música, ver esse ou aquele filme, tratar-se com homeopatia ou pegar na mão do namorado.

De nada adianta disfarçar-nos com manifestações culturais “externas”, se ainda permanecemos cativos da cultura interna. Precisamos perder o medo e conduzir o povo pra fora dos nossos muros e mostrar que tem pasto verde do lado de fora. A cultura popular pode nos alimentar a alma. Beleza e espiritualidade estão conectadas e um filme ou música “secular” pode nos levar a um momento da mais pura adoração. E técnicas orientais de meditação podem nos fazer mais sensíveis à voz do Espírito Santo, na medida em que nos ensinam a afastar-nos da maluquice do ritmo de vida pós-moderno.

Evidentemente tudo isso pode também nos fazer mal. Mas a submersão na cultura evangélica alienada é um mal terrível que vem, em pele de cordeiro, nos comendo pelas beiradas, e nós não o distinguimos direito.


Publicado originalmente no blog A TRILHA.

quinta-feira, 6 de novembro de 2008

Fórum Cristianismo Criativo


II Fórum Nacional de Cristianismo Criativo
De 7 a 28 de novembro de 2008, das 19h às 21h30, no Auditório da Livraria Cultura do Shopping Market Place em São Paulo.

O tema da segunda edição do Fórum Nacional de Cristianismo Criativo será: “Viciados em Mediocridade?”, baseado no livro homônimo do escritor Frank Schaeffer, que já figurou na lista de best-sellers do jornal New York Times.

Promovido pela W4 Editora e pelo Portal Cristianismo Criativo, o Fórum Nacional de Cristianismo Criativo tem como objetivo discutir as relações entre artes, cultura e cristianismo, procurando identificar razões que levam a produção artística cristã a ser considerada utilitária e irrelevante dentro da matriz cultural brasileira, permitindo a formulação de caminhos possíveis para uma maior interação entre os cristãos artistas e a sua comunidade.

Cada uma das quatro noites trará um pocket show e uma entrevista, seguida por um momento de debate entre os convidados e o público presente, além de internautas de todo mundo, que poderão acompanhar o evento ao vivo, via internet.

O II Fórum Nacional de Cristianismo Criativo conta com o apoio cultural e institucional das seguintes organizações: ABUB – Aliança Bíblica Universitária do Brasil, Livraria Cultura, MPC – Mocidade Para Cristo, Pavazine, Souto Crescimento de Marcas e zOnA da REfOrmA. O fórum faz parte da programação do PNLL – Plano Nacional do Livro e Leitura do Ministério da Cultura do Governo Federal.

Veja a programação e mais detalhes no site da W4
.

sexta-feira, 24 de outubro de 2008

Evangelho e cultura

Uma grande dificuldade que o cristianismo tem é se relacionar com a cultura que o cerca de forma pacífica. Reside em nossos corações o medo de perder a fé e ser atacado pelo inimigo que sorrateiramente nos espreita atrás de cada manifestação cultural. Esse mesmo medo se estende para a tecnologia e o conhecimento. Vivemos cercados de medos porque cremos em um inimigo tão forte e inteligente quanto aquele que habita em nós.

Interessante perceber que essa questão era corrente também nos tempos da igreja primitiva. Cultura e religiosidade eram coisas indivisíveis. E, a julgar pelas cartas de Paulo, a comunidade cristã em algumas cidades também sofria desse medo cultural.

Naquele contexto, semelhante ao nosso, Paulo escreve aos romanos (Rm14), ao tratar da necessidade ou não de se abster dos alimentos oferecidos aos ídolos: cada um deve estar convicto em sua própria mente. O argumento dele parece ainda mais ousado quando diz que feliz é o homem que não se condena naquilo que aprova concluindo ainda que aquele que tem dúvida, é condenado se comer (de onde se conclui que a condenação não reside no ato de comer, mas na consciência de quem come). E aos corintios (1Co 8), Paulo diz que, em relação aos alimentos sacrificados aos ídolos, sabemos que o ídolo não significa nada no mundo e que só existe um Deus. Mas, argumenta Paulo, alguns ainda comem alimentos sacrificados como se o ídolo fosse alguma coisa de poder semelhante à Deus e pudesse, de alguma forma, se opor à Ele e como a consciência deles é fraca, fica contaminada. E como o assunto é polêmico e recorrente, Paulo ainda insiste (1Co10.23): comam tudo que tem no mercado sem fazer perguntas por causa da consciência. E mais algumas vezes ele insiste que o problema não está no demônio que a cultura insere no alimento, mas na consciência de quem se alimenta, e pergunta: porque minha liberdade deve ser julgada pela consciência do outro? Ou seja: se estou tranqüilo, de cuca fresca, me deixem comer em paz!

Mas nós temos muita dificuldade de agir com liberdade nessas questões. Nosso medo continua - mas se eu for lá na aula de yoga e isso for mesmo coisa do diabo? - Parece que ele vai desapercebidamente, grudar na minha "canguta", como naquele famoso romance cristão. E vivemos à sombra do medo. E só nos sentimos seguros entre os muros gelados da nossa instituição religiosa. Lá somos intocáveis. Lá temos o corpo fechado.

Engraçado é que fomos chamados para ir ao mundo, mas poucos têm essa coragem. Se nos falta coragem, se somos fracos, como diz Paulo, é porque nos falta a essência daquilo que Jesus pede de nós – amor. Porque o amor lança fora o medo. E se foi para liberdade que Cristo nos libertou, que liberdade é essa que nos faz temer o ataque do inimigo em cada canto da cultura que nos cerca?

Paulo prossegue na luta de libertar o cristão desse medo. Aos colocensses (Cl2), ele pede que não permitam que ninguém os julgue pelo que vocês comem, ou bebem, ou com relação a alguma festividade religiosa ou à celebração das luas novas ou dos dias de sábado. Todas essas coisas envolviam, naquele tempo, uma miscelânea indivisível de religiosidade e cultura, mas Paulo pergunta sarcasticamente: porque vocês se submetem a regras: não manuseie! não prove!, não toque!? E ainda termina provocando: essas regras têm, de fato, aparência de sabedoria, com sua pretensa religiosidade, falsa humildade e severidade com o corpo, mas não têm valor algum para refrear os impulsos da carne. Ele parece insistir que o problema está em outro lugar, muito mais próximo de nós do que a cultura. Está dentro, escondido num canto escuro do nosso coração evangélico e bem comportado.

Nós insistimos em que o viver santo carece de abstermo-nos do mal e, por isso, arranjamos algumas formas de conduta que possam ser julgadas como más, para podermos nos abster delas e termos aquela bela sensação de santidade. No entanto (Cl3), povo de Deus, santo e amado, se queremos um viver santo, revistam-se de profunda compaixão, bondade, humildade, mansidão e paciência. Suportem-se uns aos outros e perdoem as queixas que tiverem uns contra os outros. Acima de tudo, porém, revistam-se do amor, que é o elo perfeito.

Portanto, no que diz respeito à cultura que nos cerca, deixemos de nos preocupar com os demônios que habitam escondidos pelos cantos. Porque toda boa dádiva e todo dom perfeito vêm do alto. E a música popular, o folclore, os atabaques e danças, bem como toda forma de cultura, está repleta de boas dádivas, que geram saúde, sabedoria, capacidade de concentração e relaxamento. Desfrutemos dessas boas dádivas com nossas consciências tranqüilas. Porque o poder de atuação do mal sobre nós reside em nossas dúvidas, temores e medos.

E, você pode estar perguntando, quando ouvimos aquele testemunho do rapaz que fez acupuntura e se viu bloqueado em relação ao seu relacionamento com Deus? Ora, nesses casos o crente se sente, no canto do seu quarto, sozinho diante de Deus, como a criança que foi pega por ter roubado doces. A consciência do sujeito já o havia condenado muito antes da primeira agulhada e, como a consciência dele era fraca, ficou contamidada.

Sim, Paulo nos exorta a cuidarmos dos fracos. Mas esse cuidado inclui, certamente, o ensino e encorajamento para fortalecê-los. E não o amparo de uma mãe superprotetora que carrega galos crescidos debaixo das asas. Por isso, como Paulo (Ef3), devemos orar à Deus para que ele os fortaleça no íntimo do seu ser com poder, por meio do seu Espírito.


Adaptado do texto publicado originalmente no blog A TRILHA em 2.5.07